quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Lendo a Lea






Há pouco confabulamos sobre nossas visões díspares do Tempo e seus efeitos em nossas vidas. Ainda ontem conversei com o Atillah no MSN, um Atillah meio manco devido ao peso de sua recente ball and chain laboral. Quando a Bel começou a escrever conosco, celebrei o encontro de uma fêmea pensante, eu, zumbi tão faminta por cérebros femininos -- iguaria raríssima.

Olho grande esse meu, ironia do Inefável: os caminhos loucos e tortos da vida me trouxeram mais cérebro do que eu poderia comer, na caixinha craniana TetraPak da minha amiga/professora/aluna Lea, companheira de momentos de angústia intelectual e descobertas culturais. A mulher simplesmente não pára de agregar valores à minha vida...

...além de escrever só um pouquinho bem pra caralho.

Ganhei esse texto de presente dela, e quis partilhar com a nossa legião de uns seis leitores.

(Pena, pois a Lea merece ser lida. Um dia a convencerei de escrever um blog.)

Impressionada com a coincidência dos temas delô com os temas delea,

--Xochiquetzal, eating humble pie. =)


Feliz ano novo

Enfim, por uma série de motivos, eu decidi não mais trabalhar aos sábados.
Sábados, prefere-se curtas viagens, descanso, outro tempo. Só dois dias, mas cabe limpar a casa, filme, estudo, cuidar de você. Fazer tempo para estudar. Compra-se tempo. Tempo para sorrir, tempo para andar, tempo para pensar. Tudo tem o seu tempo para todo propósito debaixo do céu: há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. E por aí se vão dois versículos. Restam seis de uma seção do capítulo três de Eclesiastes. As aspas deveriam ter sido abertas e já fechadas. Não o foram. Detalhe. Gasta-se tempo.
Acreditar que é tempo desperdiçado o tempo despendido só pensando, escrevendo e lendo, tempo em vão. Já ouviu falar de alguém famoso por não fazer nada? Vagabundo, é o nome. Poucos dizem. Muitos pensam.
Eu decidi que preciso parar de trabalhar aos sábados.
Gosto disso na versão em inglês. I must.

Minha aula de inglês hoje foi algo muito bom. É excelentemente bom ter uma amiga-professora que pense com a mesma intensidade que você. Além mais e além mar... no mar de reflexões que a palavra através da literatura constrói-nos seres humanos sociais políticos culturais , os ais...
Diferente ano. Algumas ciências, outras nem tão reconhecidas diriam que a vida acontece sempre em etapas. Um bom amigo afirmou sabiamente a mim (e ao vento) que “entender de mulheres é entender de ciclos”.

Não posso mais trabalhar aos sábados. O verbo mudou, o efeito não. Não poder quer dizer que estou sendo coibida à decisão. O estômago gritou: pare! O sono: pare! O coração: pare! O cérebro: é tempo de optar por outras praias.
Águas... Tenho de olhar para um canto menor e cumprido do mapa. Antes era uma forma mais para circunferência deformada e um nariz, agora reta. Presto atenção ao noticiário do clima. Aprendi que, quando chove, cai um pingo, dois e todos. Não é aquela chuva vinda aos poucos, devagar, céu cinza, mais preto e, só agora, tempestade. Aqui não. É chuva? Vem do oceano e cai. Às vezes, duram dias, sem parar. A cidade enche. Muitas casas enchem. Zona norte e zona sul, pobre e rico, lado a lado b, alaga ou não alaga.
Ouço “Ladeira da preguiça” e gosto muito de esquecer o significado de morro. Isso é tão bom! Andar, andar e ainda ver o depois, é tão bom. O horizonte? Lá, não. Só o belo. Zona norte-morro-barragem da Pampulha-morro-UFMG-morro-obra rodoviária-morro-cracolândia-IAPI-morro abaixo-centro e ufa, chegou-se ao cercado de morros. Fechado num mar de morros. Aqui não é metáfora. O mar está ali. Molhado, salgado, o primeiro e mais importante amigo. Depois dele, haveria monstros? Perguntariam meus antepassados. Não! Há mais vida.

E há vida aos sábados. Há vida às sextas também. Mas, não percebemos. Percebemos só o acaso e, por acaso, aquele velho bêbado na praça sem banco é vida também.
Amor, que nada. A vida prega suas desilusões com pregos inoxidáveis. Palavra que dá vida há algo que não se vê. Não se pega. Não se ouve. Não se cheira. Amor? Cadê? Espera seu tempo que já passou
.


--Lea.

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