quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Saussureando







Nosso mano Ferdinand de Saussure estava mais do que certo quando afirmou que "o ponto de vista cria o objeto": nossos pontos de vista absolutamente díspares quanto ao tempo e seu efeito (não mencionarei os guturais da Bel nem meus tuntz porque QUEM AMA, TOLERA) são prova disso. Xochiquetzal angustiada e seu desespero existencial que a tudo abarca; Bel rindo bêbada para o Tempo, seduzindo-o com sua objetividade hedonista que a tudo ilumina; Atillah amargurado, corroendo o Espancando com o niilismo acerbo de um post que, na minha opinião, foi um dos melhores da história deste blog.

Bel, suas memórias de curumim gordinho me encantaram. Sua enxurrada de experiências me assustou, me fez pensar nas minhas e em um de meus credos semi-inconscientes: "eu não vivo, passo perrengue". Eu não tenho uma lista bonita como a sua: tenho uma sucessão crescente de roubadas, de tempos sofridos, não vividos -- o que, obviamente, não passa de um ponto de vista. Algumas pessoas acham a minha vida fascinante. Queria ser como elas.

Mas Atillah, mano véi: hats off to you. Clothes off to you, dammit. Pode ser apenas meu ponto de vista, mas ó: que TESÃO de texto.

Incomparável. Irreversível.

Mas então.Na última segunda-feira meu pai passou por aqui e me levou pra almoçar e conversar. Temos um pequeno problema genético que nos impede de controlar o volume de nossas vozes: eu falo alto e meu pai urra. Quando estamos conversando, às vezes as pessoas vêm me perguntar se eu estou bem, ou pensando que têm que apartar porque é briga. Berro vai, berro vem, gritamos sobre o (ó Deus) Caso Eloá, ambos concordando com a inépcia da polícia, com o absurdo do policial que justificou o fracasso da operação com o fato do crime ser "passional, tratando-se da vida de UM jovem" quando a prioridade seria preservar a vida da garota. Atirador de elite no moleque, os miolos DELE na parede, fim de história. Mas não.

Colocassem um atirador ali, o pessoal dos direitos humanos viria correndo espavorido. Matassem o moleque, the horror! the horror! Tadinho do bandido! Sou apolítica, tento pender pra esquerda, mas confesso que BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO. Meus dezesseis anos de Rio-Cidade-Desespero nas costas me permitem afirmar isso.

Ao sairmos do restaurante, um senhor parrudo de rosto muito vermelho nos parou:

"-- Vocês me desculpem o incômodo, mas eu não pude evitar de ouvir a sua conversa e gostaria de dizer uma coisa... eu fui policial militar por muito tempo, trabalhando em operações especiais..."

Pensei: fodeu. Vamos ouvir uma ode à polícia brasileira de um homem gigantesco e obviamente inflamado pelo que tinha a dizer. Contendo as lágrimas, o cara pegou no braço do meu pai e disse:

"-- ... na minha última operação, um assalto a banco, o gerente foi morto pelos criminosos. Ao invadir o banco eu apaguei três deles. Depois fui saber que um era pára-quedista militar e os outros dois eram membros da corporação. Fui afastado do meu cargo, respondi a processo e por pouco não recebi uma sentença de setenta e dois anos. Larguei minha carreia por desgosto do que aconteceu. O gerente do banco ainda está embaixo da terra, sua mulher ficou viúva e seus filhos órfãos. Hoje eu trabalho numa confecção, com a minha mulher. Se mais pessoas tivessem o seu ponto de vista isso não teria acontecido."

Fiquei pasma. Meu pai conversou mais um pouco com o cara, deu um abração nele, e fomos embora.

O ponto de vista cria o objeto. Pontos de vista são altamente perigosos, pois criam insidiosamente. E criam muito, feito coelho.

No domingo anterior, Dia da Marmota, modorra de sempre, ligo a TV para ver o "Momento Amy Winehouse" do Pânico, mimijando como de hábito. Após a fúria de Amy, fui ver o que estava passando no Fantástico além da Patrícia Poeta e me deparei com uma reportagem sobre a cólica menstrual e seus efeitos sobre a produtividade feminina. Durante a visita a uma confecção, o dono, de rebenque na mão, inspecionava as mucamas empregadas, sorrindo felizes em suas máquinas de costura, comentando alegres a respeito do prêmio quinzenal que ganham se não perdem dias de trabalho por motivo de saúde. A natureza do prêmio não foi mencionada. Espero de todo coração que seja algo que compense o rebenque nas mãos do capataz, como um jogo de Tupperware ou de panos de prato com citações bíblicas para cada dia da semana.

No final, o repórter entrevista uma moça empacotadeira de supermercado e pergunta o que ela faz para suportar oito horas de pé quando tem cólicas menstruais:


"Eu canto", respondeu a moça.

O ponto de vista criando o objeto.

Cantando,

--Xochiquetzal.

4 comentários:

Anônimo disse...

Saussureações sobre o meu "BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO", colocadas pela Leandra nesse fim de semana, enquanto escalávamos rochedos na praia:

"Você tá vendo as coisas do ponto de vista da Eloá e da família dela. E se o seqüestrador fosse seu amigo? Fosse seu IRMÃO?"

Pontos de vista: we haz dem!

Bel disse...

foi o que falei pra vixen esses dias.
o cara não era exatamente bandido, véio... nem antecedente criminal ele tinha. como poderíamos saber se ele realmente ia matar a moça ou se tava só querendo atenção e surtando com tudo aquilo? o moleque é da minha idade, e estava no famoso SURTAS por causa da eloá. Daí, se tivessem matado o garoto, diriam "é, polícia fdp, pra que matar o menino? que polícia é essa, que mata um menino que tá descontrolado por uma dor de coração? era praticamente um menino, com tanta vida pela frente etc etc etc".
Eu não teria coragem de puxar o gatilho, ainda mais ele não tendo antecedente criminal nenhum e eu sem saber se ele tava surtando e depois ia largar a arma, chorar e dizer "MIM PERDOUA ELOAAAA" ou fazer a merda que fez.
O buraco é mais embaixo :/

Quanto ao Saussere, postarei minhas ruminações sobre isso ASAP.

=**********

Anônimo disse...

Pois é.

"What ifs" nesse caso são complicados... não temos como saber o que teria acontecido se o desfecho fosse diferente, se ele pediria perdão, se as meninas ficariam bem, o que diriam da ação da polícia. Só se pode dizer que o resultado só não foi pior porque a amiga da menina escapou. Quanto ao meliante (ah, Rio de Janeiro, que põe pérolas podres na boca dos que te ama!), cara, é foda.

"O cara não era exatamente bandido" -- ele passou a ser bandido quando pôs as duas meninas em cativeiro. Há atenuantes pra tudo, menos pra morte.

Coisa complicada isso.

Vale pra provar que essas polêmicas, pelo menos na minha experiência, não levam a lugar algum -- enquanto não se é diretamente afetado por elas.

Êta vida complicada, meu Deus.

Bel disse...

NÃO, LÔ. nós NÃO nos rebaixaremos a discutir a eloá. o mundo real é proibido de entrar neste blog.

continuemos com o saussure







(aliás, EU continuo *flushes*. assim que eu tiver tempo *sai de fininho*).

sendo soterrada pelo projeto de estágio,
bel